Ancião Eugénio de Stavronikita

O Ancião Eugénio de Stavronikita, de Bem-Aventurada Memória

1930 – 2011

Uma breve homenagem ao monge athonita Eugénio de Rethymno, do Santo Mosteiro de Stavronikita


O Ancião Eugénio de Stavronikita
O Ancião Eugénio de Stavronikita.

Dados biográficos

Nome secular
Nikolaos Frangakis
Nascimento
16 de setembro de 1930, Vyzari, Amari, Rethymno (Creta)
Mosteiro
Santo Mosteiro de Stavronikita, Monte Athos
Repouso
Sábado de Lázaro, 3 de abril de 2011 (calendário juliano) – 16 de abril de 2011 (calendário gregoriano)

O testemunho da fé

Os cristãos são o sal da terra e a luz do mundo1; muitas vezes tornam-se objeto de escárnio, de clamor e de calúnias desavergonhadas por parte dos inimigos do Senhor. E quanto mais cresce a participação dos fiéis nos sacramentos da Igreja, mais cresce também o número dos adversários do Cristianismo, que se empenham por todos os meios em difamar a Igreja, espalhando calúnias e falsas acusações contra ela e contra os seus fiéis.

«O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram, a respeito do Verbo da vida — pois a vida manifestou-se, e nós vimo-la, e damos testemunho, e anunciamo-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos foi manifestada.»2

Este testemunho, para todo o verdadeiro fiel, mesmo quando não chega ao martírio do sangue, é sempre um martírio da consciência. «Quer pela vida, quer pela morte», segundo as palavras do grande Apóstolo3, Cristo deve ser glorificado em nós; todos nós, quer com sangue, quer com lágrimas, devemos dar «a boa confissão».4

Vida

O Ancião Eugénio de Stavronikita, de bem-aventurada memória, nasceu a 16 de setembro de 1930 na aldeia de Vyzari, em Amari, e adormeceu no Senhor no Sábado de Lázaro, 3 de abril de 2011 segundo o calendário juliano (antigo), 16 de abril de 2011 segundo o calendário gregoriano (novo).

Veio para o Monte Athos e tornou-se monge no Santo Mosteiro de Stavronikita já em idade madura, depois de ter tido o cuidado de não deixar nenhum assunto pendente no mundo. O seu nome secular era Nikolaos Frangakis. Permaneceu no Santo Mosteiro de Stavronikita até ao seu repouso, em 2011.

Vídeo: Santo Mosteiro de Stavronikita.

O carácter do Ancião

Mesmo nos momentos em que não falava, era uma alegria vê-lo. Bastava contemplá-lo para se ganhar força. Irradiava serenidade, uma paz da alma; no seu rosto desenhava-se um pequeno paraíso antes do Paraíso.

O Ancião Eugénio
O Ancião Eugénio.

Calmo, sempre alegre e afável, nobre e cortês, como o próprio nome (Eugénio, «o bem-nascido») testemunhava, ficava sentado durante muitas horas à entrada, antes da hospedaria (archontariki) do mosteiro, e acolhia os filhos de Deus com uma doçura no rosto que as palavras não conseguem descrever. Apoiava-nos tanto quando o víamos pessoalmente como quando falávamos ao telefone, em todas as circunstâncias. Com paciência e muita oração, fazia pequenas cruzes com caroços de azeitona e exortava sempre ao arrependimento e à humildade.

Homem livre (um verdadeiro cretense, como há poucos), que nunca pressionava nem obrigava ninguém. Procurava aliviar a dor das pessoas que o visitavam. Era irmão, amigo e pai: um homem com quem se podia ficar horas a ouvi-lo, desejando que o tempo nunca acabasse. Muitas vezes, antes de lhe dizermos alguma coisa, percebíamos que ele já a sabia. Amava profundamente o Patriarcado Ecuménico e defendia a sua obra de todas as formas e em todas as ocasiões.

Sentimos a falta da sua voz, do seu riso, da sua altiva galhardia cretense, da sua palavra consoladora. Mas sabemos que, de onde está, reza por todos nós, com grande confiança diante de Deus, de São Nicolau «Streidas» («da Ostra») e da Santíssima Theotokos, que tanto amava.

Oração e ensinamento

O Ancião Eugénio no Mosteiro de Stavronikita
O Ancião Eugénio.

Senhor dos Exércitos, sê connosco, pois nas aflições não temos outro auxílio além de Ti. Senhor dos Exércitos, tem piedade de nós.5 Não esperando o auxílio dos homens, mas aguardando a Tua misericórdia e esperando a Tua salvação.

A primeira petição do sacerdote, dizia-nos o Ancião Eugénio, é «Pela paz do alto e pela salvação das nossas almas».6 Ao dizer «paz», não se refere apenas à paz entre nós, isto é, quando não guardamos rancor a ninguém, mas também à paz connosco mesmos, isto é, quando o nosso coração não nos acusa de nada.

O Ancião Eugénio era trabalhador ao extremo; incansável; sempre desperto nos Santos Ofícios, nos quais participava ativamente, apesar da «sua idade avançada». Estudava continuamente os Santos Padres da nossa Igreja e, nas suas conversas, invocava sempre textos patrísticos.

Uma vida de sacrifício e de amor

O Ancião Eugénio de Stavronikita viveu saciando a sua sede, todos os dias, na fonte da vida, que é Cristo. A sua vida, ligada desde a infância a uma profunda tristeza, entrelaçada com o sacrifício contínuo, cheia de lágrimas, de fadiga e de suspiros, foi um morrer de cada dia.

A sua vida, o seu sorriso, a sua alma, o seu imenso coração: um paraíso, um «sinal», uma referência firme. O Ancião Eugénio partiu já desta vida, mas vive; está imóvel, mas caminha na vida bem-aventurada; está calado, mas a sua voz continua a ouvir-se; está como quem dorme, mas vela; escolheu a vida solitária, mas abraçou o mundo inteiro.

Desde pequeno conheceu a dor, o desprezo e a fraqueza da natureza. Ao desafio de tudo isto respondeu com uma compaixão sem distinções para com todos. Quem se aproximou dele e encontrou a sua porta fechada? Quem lhe pediu alguma coisa e não partiu com as mãos cheias e o coração saciado? Quem se apoiou nele e não encontrou compreensão? Quem o tocou na tristeza e não transbordou de consolação?

O Ancião estava adornado de muitas virtudes. Entre elas, a simplicidade do seu carácter, o amor desinteressado, a afabilidade, a humildade e muitas outras. Quem conversava com ele descobria que era um homem carismático. Como pai espiritual, apontava as faltas de quem se confessava de um modo muito doce.

Na pessoa do Ancião, todos nós, os seus filhos espirituais, víamos o verdadeiro amigo, irmão, pai e guia. Havia algo de diferente, algo de singular, no Ancião Eugénio, este monge cretense: quando nos saudava com a sua voz estentórea com o «Cristo Ressuscitou», tínhamos a sensação de que a terra que ele pisava estremecia. Este monge singular levava todos os que o visitavam a amar a Deus e a odiar as obras do diabo.

O Ancião nunca se pôs em evidência. Falava sempre do Único, o Senhor sem pecado, que subiu à Cruz, morreu, foi sepultado, ressuscitou e subiu aos Céus.

Estas poucas e pobres palavras escrevi sobre a pessoa do meu pai espiritual de bem-aventurada memória, o monge athonita Eugénio de Rethymno, de Stavronikita, que habita nas moradas celestes e glorifica a Deus com todos os Santos.

Poemas do Ancião

Ao concluir esta breve homenagem, junto dois poemas e uma mantinada (dístico rimado tradicional de Creta) compostos pelo Ancião, que ele me deu no Domingo de Ramos de 2008. As traduções abaixo são literais e sem rima; o texto grego original encontra-se na página grega.

«Abre o teu coração…»

Abre o teu coração
ao teu pai espiritual
e diz os teus pecados
cometidos no teu tempo.

Arrependei-vos, cristãos,
e confessai-vos,
para que vos encontreis puros
quando fordes ao Juiz.

Tende humildade
perante o vosso pai espiritual;
dizei os vossos pecados
e cada pensamento vosso.

Arrependidos e puros
e confessados,
para que o Juiz não vos diga
que o inferno vos espera.

Precisa de arrependimento
todo o baptizado,
e de se encontrar na morte
confessado.

O mandamento do arrependimento
é de João,
que baptizava os fiéis
lá no Jordão.

Arrependimento, confissão
e Santa Comunhão
são as únicas provisões
para a salvação.

Arrependimento e oração,
lágrimas e jejum:
é isto que nos eleva
ao Reino do Alto.

«Ao Teu Jardim irei…»7

Ao Teu Jardim irei,
minha doce Panagia,
para terminar a vida
sem pecado.

Senhora, no Teu Jardim
viverei a minha vida,
e nas Tuas santas mãos
entregarei a minha alma.

No Teu Jardim encontrarei
uma pequena cabana,
para ter a dor por companhia
e as lágrimas por adorno.

Dá-me, minha Panagia,
alegria no coração,
e que me corram dos olhos
as minhas lágrimas ardentes.

As lágrimas do Monge
são um fogo que arde,
com a oração à Panagia
nos lábios.

Põe-me no Paraíso,
também a mim, minha Senhora,
para que a minha alma encontre repouso
dos meus sofrimentos.

Muitas vezes pequei,
minha Senhora, diante de Ti;
ajuda-me no meu juízo
perante o Senhor, Teu Filho.

Uma mantinada sobre a santificação do Domingo

Por fim, apresento a mantinada do Ancião sobre o descanso no Dia do Senhor:

Όποιος δουλεύει Κυριακή
δεν πάει εκκλησία,
οι συμφορές τον βρίσκουνε
και ψάχνει την αιτία.

Quem trabalha ao Domingo
e não vai à igreja,
as desgraças vêm encontrá-lo,
e ele procura a causa.

O Senhor criou o dia de Domingo para que nos alegrássemos nele, não nos obscurecendo com bebedeiras e ações torpes, mas encontrando deleite no estudo das Sagradas Escrituras. Deus deu-nos este dia, em que destruiu o poder da morte, e chamou-lhe Dia do Senhor (Kyriaki), para que, a partir do próprio nome, honrássemos o dia e guardássemos os mandamentos do Senhor. Não ignores o mandamento do descanso dominical, não roubes o Seu dia, não te separes da oração, não te afastes da Divina Liturgia. Não há nada mais elevado do que a Igreja. Ela é mais alta do que o céu, mais luminosa do que o sol, mais resplandecente do que o mundo inteiro.

Fotografias

Fotografias da Páscoa de 2008. Clique numa fotografia para a ver em tamanho maior.

Notas

  1. Mateus 5,13–14. ↩
  2. 1 João 1,1–2. ↩
  3. Filipenses 1,20. ↩
  4. 1 Timóteo 6,12. ↩
  5. Grande Completas (Mega Apodeipno). ↩
  6. Divina Liturgia, Grande Ladainha. ↩
  7. O «Jardim da Theotokos» (Perivoli tis Panagias) é o nome tradicional do Monte Athos. ↩

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